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22 de set. de 2023

O Conceito de Imagem e Semelhança de Deus


Da mesma forma que a discussão acerca da sexualidade dos seres celestiais, o tema “imagem e semelhança de Deus” aplicável à criação do ser humano, não é consensual, como também não é consensual que ambas as expressões refiram-se à mesma coisa.

Gordon Clark, em seu artigo “A Imagem e Semelhança de Deus [1]”, defende que a imagem e semelhança não poderia ser a forma do corpo humano, conforme defendida por Justino Mártir, pois Deus, segundo Clark, não sendo carne e osso, não teria forma corporal.

Este também discorda das principais acepções defendidas por Gregório de Nissa, Agostinho e Tomás de Aquino, quando afirma que não há distinção entre “imagem” e “semelhança”. O autor defende que estes conceitos se referem, conforme exegese de 1 Coríntios 11:7, Filipenses 1:21, 2 Coríntios 5:1, 2 Coríntios 12:2, Gênesis 2:7, à mesma coisa: a alma, sendo que o corpo, é apenas instrumento da imagem, a casa da alma. No entanto, a alma humana depende do corpo para se expressar e ser “personalidade”.

Justino Mártir, no entanto, defende que o conceito de imagem se refere à forma singular e verticalizada do corpo humano, distinta dos demais animais.

Essa premissa me parece válida e discordando da grande maioria que acredita num Deus, strictu sensu, espírito, sem forma definida, parte da concepção de que não se pode confundir “espírito” com “sem forma”, “sem corpo”. Os seres espirituais têm forma e expressão corporal. É assim que aparece na Bíblia, com expressão humana, o corpo “semelhante” aos filhos dos homens, logo, a imagem e semelhança vem a referir, inclusive, a expressão e a postura (anatomia) corporal, além dos aspectos morais, a racionalidade, o conhecimento, a capacidade de julgar, a virtude, etc. Não é um, mas o conjunto, corpo e alma, que diferencia o humano dos seres animais irracionais.

Acreditar em um Deus e anjos incorpóreos, por serem espirituais, é reduzi-los a apenas a uma força, como a eletricidade e à luz. A acepção popular, derivada da filosofia e das ciências comportamentais é de que “espírito é tudo que é imaterial”. Esta acepção não se aplica ao criador, pois Deus não é uma força criadora como pregam muitos; Deus é uma pessoa, um ser espiritual porque não visível aos olhos humanos, no entanto um dia o veremos face a face, como afirma I Coríntios 13:12 e, só podemos ver o que existe de forma pessoal, com corpo, um corpo espiritual.

Quem prega que os seres espirituais como “sem corpo e sem forma” ignora o que a própria Bíblia diz sobre o tema. A primazia do material e a negação do mundo espiritual é princípio da ciência ateísta. É o erro teológico mais grosseiro que se pode cometer contra a pessoalidade de Deus e dos anjos!

Os relatos bíblicos de visão de anjos e do Senhor contraria a opinião dos que crêem no mundo espiritual sem forma, pois quem vê, vê alguma coisa e se vê alguma coisa, essa coisa tem forma. Em Isaías, capítulo 6, versículos 1, 2 e 6, o Profeta afirma que viu o Senhor assentado e com vestes (acreditamos ser aquele que mais tarde viria ao mundo e se chamaria Jesus, tendo em vista que o mesmo Jesus disse, conforme João 1:18, que ninguém viu o Pai) e serafins, estes tinham mãos, pés e rosto:

1.No ano da morte do Rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublimo trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. 2.Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava.”...“6.Então um dos Serafins voou para mim, trazendo na mão uma brasa viva que tirara do altar com uma tenaz”.

Da mesma forma, o Profeta Daniel nos traz diversos relatos (Dn.10:5,10,16,18) de suas visões e acontecimentos que nos informa acerca do corpo dos seres celestiais e sua semelhança com o corpo humano.

Na transfiguração descrita nos Evangelhos de Mateus (Mt. 17:1-8), Marcos (Mc. 9:2-8) e Lucas (Lc 9: 28-36) vemos o relato de que aparecem com Jesus Cristo, Elias e Moisés. Eis aí um grande mistério! Ora, Elias não morreu mais foi arrebatado. Pra onde? Poderia alguém viver com um corpo humano e material na dimensão celestial? Onde está Elias? Moisés, por sua vez, morreu e foi sepultado. Então ambos não poderia ter aparecido com um corpo material e sim com um corpo celestial (conforme I Coríntios 15:50, “a corrupção não participará da incorruptibilidade.”). Esse corpo tem forma, a apresentação da forma humana. Essa forma humana nada mais é do que uma semelhança à forma do corpo dos seres celestiais ou espirituais.

Sobre a existência e natureza dos corpos espirituais o Apóstolo Paulo doutrina sobre esse tema no capítulo 15 da Primeira Epístola aos Coríntios. Veja o que diz o mesmo nos versículos abaixo transcritos:

38. Deus, porém, lhe dá o corpo como lhe apraz, e a cada uma das sementes o corpo da planta que lhe é própria. 39. Nem todas as carnes são iguais: uma é a dos homens e outra a dos animais; a das aves difere da dos peixes. 40. Também há corpos celestes e corpos terrestres, mas o brilho dos celestes difere do brilho dos terrestres. 41. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua e outra a claridade das estrelas; e ainda uma estrela difere da outra na claridade. 42. Assim também é a ressurreição dos mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; 43. semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso; 44. semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. (...) 49. E, assim, como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial. (...) 53. É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade.”

Assim, contrariando a tese de que o corpo humano não poderia ter sido criado à imagem e semelhança de Deus e dos anjos porque estes não teriam corpo, por seres espirituais, a exegese bíblica afirma de que há corpos espirituais.

Quanto à alma humana, uma vez cedida por Deus, ela é imortal, não sendo, no entanto, eterna, visto que a eternidade contraria a noção de criação e a tornaria divina. Em outros termos, a alma não é preexistente ao corpo, é cedida por Deus na gestação.

Os aspectos, morais, emocionais, racionalidade, justiça, etc., que nos torna diferentes dos demais animais resultam da alma. Eles (os animais, as plantas) têm corpo, mas não se expressam com “conhecimento do bem e do mal”, pois como disse a serpente à Eva, não são iguais a Deus, não tem a imagem e semelhança de Deus.

Observe que em Genesis 3, vemos um homem em sua pureza, na mais completa inocência do “bem e do mal”, desconhecedor inclusive de sua própria nudez e quiçá de seu sentido existencial. Este homem em parte era como “Deus” ou em outros termos, certos aspectos da “imagem e semelhança” divina existiam apenas potencialmente. A serpente mentiu quanto à imortalidade não quanto à capacidade de tornar a característica “conhecedor do bem e do mal” de imanente em efetiva:

Então, disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal...” Gen.3:22a.

Assim, não é bíblico acreditar que o homem tenha perdido sua semelhança com o divino após o pecado. A perda é em parte, pois como disse o próprio Deus “o homem se tornou como um de nós” para o bem e para o mal.

Os animais irracionais não são bons e maus. Seguem apenas seus instintos naturais de defesas e sobrevivência. Ser bom ou mal pressupõe a capacidade de decisão, isto é, racionalidade. Esta capacidade em Adão somente se manifesta após a reação de Eva diante das opções entre obedecer a Deus e viver seu livre arbítrio. Decidir em função das opções foi o ato em que ele “se tornou igual aos seres celestiais”.

Sobre esse assunto, Gordon Clark (p.4), discorrendo sobre as teses de Tomás de Aquino e Bellarmin diz:

O homem, portanto, não foi estritamente criado justo. Adão era no principio moralmente neutro. Talvez ele não tenha sido nem mesmo neutro. Bellarmin fala do Adão original, composto de corpo e alma, como desordenado e enfermo, afligido com um morbus ou langor que precisava de um remédio. Todavia, Bellarmin não disse exatamente que esse morbus era pecado; antes, ele era algo desafortunado e menor do que o ideal. Para remediar esse defeito, Deus deu o dom adicional da justiça. A queda de Adão, então, resultou na perda da justiça original, mas ele caiu somente para o nível moral neutro no qual ele tinha sido criado. Nesse estado, por causa do seu livre-arbítrio, ele é capaz — pelo menos num grau pequeno — de agradar a Deus.”

Assim, pode-se concluir que embora o pecado segregue o homem de seu criador e possa até destruir a sua semelhança “moral” com o divino, conforme aconteceu com a sociedade pré-diluviana, conforme relato de Genesis 6.5:

5. Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mal todo o desígnio do seu coração.”

Certos aspectos da imagem e semelhança não podem ser destruídos, porque ele envolve corpo e alma e, o primeiro só se desfaz com a morte física e o último, como diz Salomão no Livro de Eclesiastes 12:7, como parte do poder vivificador divino cedido na criação ou nascimento, volta ao seu criador, com a destruição do tabernáculo terreno, o corpo:

7. Antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço, 8. E o pó volte à terra, como era, e o espírito volte a Deus que o deu.”

Assim, concluímos que também o corpo humano, a estrutura vertical, foi criado à semelhança e imagem de Deus e dos Anjos.


Este texto é de autoria de Lucio Maciel
Material de divulgação do Ebook a ser lançado em 2013 "A Recriação de Adão: Refutações a Tese Maçônica-Rosacruzes".

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[1] Tradução de publicado no site Monergismo, tradução de Felipe Sabino de Araújo Neto.
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