Da
mesma forma que a discussão acerca da sexualidade dos seres
celestiais, o tema “imagem e semelhança de Deus” aplicável à
criação do ser humano, não é consensual, como também não é
consensual que ambas as expressões refiram-se à mesma coisa.
Gordon
Clark, em seu artigo “A Imagem e Semelhança de Deus [1]”,
defende que a imagem e semelhança não poderia ser a forma do corpo
humano, conforme defendida por Justino Mártir, pois Deus, segundo
Clark, não sendo carne e osso, não teria forma corporal.
Este
também discorda das principais acepções defendidas por Gregório
de Nissa, Agostinho e Tomás de Aquino, quando afirma que não há
distinção entre “imagem” e “semelhança”. O autor defende
que estes conceitos se referem, conforme exegese de 1 Coríntios
11:7, Filipenses 1:21, 2 Coríntios 5:1, 2 Coríntios 12:2, Gênesis
2:7, à mesma coisa: a alma, sendo que o corpo, é apenas instrumento
da imagem, a casa da alma. No entanto, a alma humana depende do corpo
para se expressar e ser “personalidade”.
Justino
Mártir, no entanto, defende que o conceito de imagem se refere à
forma singular e verticalizada do corpo humano, distinta dos demais
animais.
Essa
premissa me parece válida e discordando da grande maioria que
acredita num Deus, strictu sensu, espírito, sem forma definida,
parte da concepção de que não se pode confundir “espírito”
com “sem forma”, “sem corpo”. Os seres espirituais têm forma
e expressão corporal. É assim que aparece na Bíblia, com expressão
humana, o corpo “semelhante” aos filhos dos homens, logo, a
imagem e semelhança vem a referir, inclusive, a expressão e a
postura (anatomia) corporal, além dos aspectos morais, a
racionalidade, o conhecimento, a capacidade de julgar, a virtude,
etc. Não é um, mas o conjunto, corpo e alma, que diferencia o
humano dos seres animais irracionais.
Acreditar
em um Deus e anjos incorpóreos, por serem espirituais, é reduzi-los
a apenas a uma força, como a eletricidade e à luz. A acepção
popular, derivada da filosofia e das ciências comportamentais é de
que “espírito é tudo que é imaterial”. Esta acepção não se
aplica ao criador, pois Deus não é uma força criadora como pregam
muitos; Deus é uma pessoa, um ser espiritual porque não visível
aos olhos humanos, no entanto um dia o veremos face a face, como
afirma I Coríntios 13:12 e, só podemos ver o que existe de forma
pessoal, com corpo, um corpo espiritual.
Quem
prega que os seres espirituais como “sem corpo e sem forma”
ignora o que a própria Bíblia diz sobre o tema. A primazia do
material e a negação do mundo espiritual é princípio da ciência
ateísta. É o erro teológico mais grosseiro que se pode cometer
contra a pessoalidade de Deus e dos anjos!
Os
relatos bíblicos de visão de anjos e do Senhor contraria a opinião
dos que crêem no mundo espiritual sem forma, pois quem vê, vê
alguma coisa e se vê alguma coisa, essa coisa tem forma. Em Isaías,
capítulo 6, versículos 1, 2 e 6, o Profeta afirma que viu o Senhor
assentado e com vestes (acreditamos ser aquele que mais tarde viria
ao mundo e se chamaria Jesus, tendo em vista que o mesmo Jesus disse,
conforme João 1:18, que ninguém viu o Pai) e serafins, estes tinham
mãos, pés e rosto:
“1.No
ano da morte do Rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e
sublimo trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. 2.Serafins
estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o
rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava.”...“6.Então
um dos Serafins voou para mim, trazendo na mão uma brasa viva que
tirara do altar com uma tenaz”.
Da
mesma forma, o Profeta Daniel nos traz diversos relatos
(Dn.10:5,10,16,18) de suas visões e acontecimentos que nos informa
acerca do corpo dos seres celestiais e sua semelhança com o corpo
humano.
Na
transfiguração descrita nos Evangelhos de Mateus (Mt. 17:1-8),
Marcos (Mc. 9:2-8) e Lucas (Lc 9: 28-36) vemos o relato de que
aparecem com Jesus Cristo, Elias e Moisés. Eis aí um grande
mistério! Ora, Elias não morreu mais foi arrebatado. Pra onde?
Poderia alguém viver com um corpo humano e material na dimensão
celestial? Onde está Elias? Moisés, por sua vez, morreu e foi
sepultado. Então ambos não poderia ter aparecido com um corpo
material e sim com um corpo celestial (conforme I Coríntios 15:50,
“a corrupção não participará da incorruptibilidade.”). Esse
corpo tem forma, a apresentação da forma humana. Essa forma humana
nada mais é do que uma semelhança à forma do corpo dos seres
celestiais ou espirituais.
Sobre
a existência e natureza dos corpos espirituais o Apóstolo Paulo
doutrina sobre esse tema no capítulo 15 da Primeira Epístola aos
Coríntios. Veja o que diz o mesmo nos versículos abaixo
transcritos:
“38.
Deus, porém, lhe dá o corpo como lhe apraz, e a cada uma das
sementes o corpo da planta que lhe é própria. 39. Nem todas as
carnes são iguais: uma é a dos homens e outra a dos animais; a das
aves difere da dos peixes. 40. Também há corpos celestes e corpos
terrestres, mas o brilho dos celestes difere do brilho dos
terrestres. 41. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua e
outra a claridade das estrelas; e ainda uma estrela difere da outra
na claridade. 42. Assim também é a ressurreição dos mortos.
Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; 43.
semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza,
ressuscita vigoroso; 44. semeado corpo animal, ressuscita corpo
espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. (...)
49. E, assim, como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos
trazer também a imagem do celestial. (...) 53. É necessário que
este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este
corpo mortal se revista da imortalidade.”
Assim,
contrariando a tese de que o corpo humano não poderia ter sido
criado à imagem e semelhança de Deus e dos anjos porque estes não
teriam corpo, por seres espirituais, a exegese bíblica afirma de que
há corpos espirituais.
Quanto
à alma humana, uma vez cedida por Deus, ela é imortal, não sendo,
no entanto, eterna, visto que a eternidade contraria a noção de
criação e a tornaria divina. Em outros termos, a alma não é
preexistente ao corpo, é cedida por Deus na gestação.
Os
aspectos, morais, emocionais, racionalidade, justiça, etc., que nos
torna diferentes dos demais animais resultam da alma. Eles (os
animais, as plantas) têm corpo, mas não se expressam com
“conhecimento do bem e do mal”, pois como disse a serpente à
Eva, não são iguais a Deus, não tem a imagem e semelhança de
Deus.
Observe
que em Genesis 3, vemos um homem em sua pureza, na mais completa
inocência do “bem e do mal”, desconhecedor inclusive de sua
própria nudez e quiçá de seu sentido existencial. Este homem em
parte era como “Deus” ou em outros termos, certos aspectos da
“imagem e semelhança” divina existiam apenas potencialmente. A
serpente mentiu quanto à imortalidade não quanto à capacidade de
tornar a característica “conhecedor do bem e do mal” de imanente
em efetiva:
“Então,
disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós,
conhecedor do bem e do mal...” Gen.3:22a.
Assim,
não é bíblico acreditar que o homem tenha perdido sua semelhança
com o divino após o pecado. A perda é em parte, pois como disse o
próprio Deus “o homem se tornou como um de nós” para o bem e
para o mal.
Os
animais irracionais não são bons e maus. Seguem apenas seus
instintos naturais de defesas e sobrevivência. Ser bom ou mal
pressupõe a capacidade de decisão, isto é, racionalidade. Esta
capacidade em Adão somente se manifesta após a reação de Eva
diante das opções entre obedecer a Deus e viver seu livre arbítrio.
Decidir em função das opções foi o ato em que ele “se tornou
igual aos seres celestiais”.
Sobre
esse assunto, Gordon Clark (p.4), discorrendo sobre as teses de Tomás
de Aquino e Bellarmin diz:
“O
homem, portanto, não foi estritamente criado justo. Adão era no
principio moralmente neutro. Talvez ele não tenha sido nem mesmo
neutro. Bellarmin fala do Adão original, composto de corpo e alma,
como desordenado e enfermo, afligido com um morbus ou langor que
precisava de um remédio. Todavia, Bellarmin não disse exatamente
que esse morbus era pecado; antes, ele era algo desafortunado e menor
do que o ideal. Para remediar esse defeito, Deus deu o dom adicional
da justiça. A queda de Adão, então, resultou na perda da justiça
original, mas ele caiu somente para o nível moral neutro no qual ele
tinha sido criado. Nesse estado, por causa do seu livre-arbítrio,
ele é capaz — pelo menos num grau pequeno — de agradar a Deus.”
Assim,
pode-se concluir que embora o pecado segregue o homem de seu criador
e possa até destruir a sua semelhança “moral” com o divino,
conforme aconteceu com a sociedade pré-diluviana, conforme relato de
Genesis 6.5:
“5.
Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e
que era continuamente mal todo o desígnio do seu coração.”
Certos
aspectos da imagem e semelhança não podem ser destruídos, porque
ele envolve corpo e alma e, o primeiro só se desfaz com a morte
física e o último, como diz Salomão no Livro de Eclesiastes 12:7,
como parte do poder vivificador divino cedido na criação ou
nascimento, volta ao seu criador, com a destruição do tabernáculo
terreno, o corpo:
“7.
Antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e
se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao
poço, 8. E o pó volte à terra, como era, e o espírito volte a
Deus que o deu.”
Assim,
concluímos que também o corpo humano, a estrutura vertical, foi
criado à semelhança e imagem de Deus e dos Anjos.
Este
texto é de autoria de Lucio Maciel
Material de divulgação do
Ebook a ser lançado em 2013 "A Recriação de Adão: Refutações
a Tese Maçônica-Rosacruzes".
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[1]
Tradução de publicado no site Monergismo, tradução de Felipe
Sabino de Araújo Neto.
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